Autores do resumo: Maria Suzana Bata Maguele, Fernando Chissale, Málica de Melo, Tatiana Salisbury
Teve lugar entre os dias 11 e 12 de Dezembro do ano em curso, em Coimbra, Portugal, o 5º Encontro Anual 2023 do Grupo de Língua Portuguesa da Sociedade Marcé para a Saúde Mental Perinatal, sob o lema: “INOVAÇÃO EM SAÚDE MENTAL PERINATAL”. O encontro que decorreu no formato híbrido (presencial e online), juntou pesquisadores de vários países falantes da língua portuguesa na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, para apresentar estudos e projecto do campo da saúde mental.
Embora as evidências indiquem que a gravidez na adolescência traz consigo experiências negativas para a saúde mental durante o período perinatal, intervenções específicas e contextualizadas para prevenção da saúde mental das adolescentes, no período perinatal ainda não foram implementadas em Moçambique.

É neste contexto que o ICRH-M, participou remotamente do evento, através da Gestora de Pesquisas e uma das pesquisadoras no projecto, Maria Suzana Bata Maguele, tendo apresentado os resultados da pesquisa sobre necessidades e desafios das adolescentes gràvidas e mães no período perinatal. A pesquisa foi feita no âmbito do levantamento das necessidades e desafios dos diferentes intervenientes da comunidade para o bem estar das adolescentes gravidas, e auxiliar o desenho de uma intervenção em saúde mental perinatal, como primeira fase do projecto denominado INSPIRE.
INSPIRE (Abordagens inovadoras para o bem-estar perinatal das adolescentes) é um projeto que integra desenho centrado no ser humano, pensamento sistémico e ciências de implementação para desenvolver intervenções em saúde mental das adolescentes durante o período perinatal.
O projecto è implementado pelo ICRH-M, na província de Tete, em estreita coordenação com o Ministério da Saúde e parceria da Kings College London e da Aga Khan University, Quénia.
É um projecto de pesquisa operacional que pretende em duas fases, identificar, desenvolver e realizar intervenções-piloto voltadas ao apoio para saúde e bem-estar mental de adolescentes grávidas e novas mães dos 15 a 19 anos de idade em Moçambique. A 1ª Fase do projecto consistiu em trabalho de campo em Moatize Sede e Cateme e (b) workshops de cocriação para a concepção da intervênção com base nas evidências do trabalho de campo, que decorreu de 2021 a 2022. A 2ª Fase, consiste no Teste piloto da intervênção concebida na primeira fase, e será implementado de 2023-2024.
Objetivamente, na sua fase de pré-implementação, o projeto envolveu adolescentes e membros da comunidade, no planeamento e preparação da intervenção. Este estudo, explorou as perspectivas das mães adolescentes, suas famílias, parceiros, influenciadores comunitários e provedores de saúde sobre as experiências, desafios e necessidades enfrentadas pelas adolescentes moçambicanas durante o período perinatal.
Metodologia: Foi realizada uma pesquisa exploratória, descritiva, de abordagem centrada no ser humano, ao longo de 11 meses. Foram incluídas 10 adolescentes grávidas (com idades compreendidas entre 15 e 19 anos) e 12 mulheres jovens (com idades compreendidas entre 20 e 24 anos) que tinham experimentado uma gravidez na adolescência em discussões em grupos focais, entrevistas individuais, mapeamento dos serviços e observações para melhor compreender seus desafios, prioridades e necessidades de bem-estar durante o período perinatal. Também foram realizadas entrevistas e discussões em grupos focais com os membros da comunidade.
Resultados: A pesquisa revelou importantes temas do contexto da comunidade que inclue questoes ligadas a: 1. Saúde sexual e reprodutiva- A falta de informação sobre saúde sexual e reprodutiva está associada a altas taxas de gravidez e ao aumento da ansiedade e depressão entre as raparigas quando engravidam. as normas de género e a reputação familiar desempenham um papel importante nas famílias e têm impacto na capacidade das raparigas de tomar decisões sobre ela e o seu bebé.–
- Sistemas de saúde – nestas comunidades, a medicina tradicional desempenha um papel importante na vida de algumas famílias para proteção ou tratamento de algumas doenças. Os agentes comunitários de saúde apoiam a comunidade, na promoção e prevenção em saúde do que no tratamento de doenças.
- Educaçao e Formação Académica – O abandono escolar acontece por vários motivos: falta de meios para as despesas; estigma; normas de género; desafios com a saúde física relacionada ao estado da gravidez; ter de cuidar do bebé e/ou trabalhar após o parto.
- Parceiro e sogros e dependências– A relação com o parceiro é sempre vista como motivo de preocupação, seja por causa do casamento forçado resultante da gravidez ou devido à violência ou mesmo devido ao medo do abandono. A gravidez é vista como uma responsabilidade da mãe, enquanto o parceiro sai a busca do sustento para casa.
O estudo frisou necessidades de implementação de melhoria de habilidades das adolescentes e jovens para desafiar as barreiras sociais, culturais e estruturais que limitam sua autonomia para reconhecer e lidar com os direitos sexuais e reprodutivos. São necessárias intervenções comunitárias que promovam os direitos, normas igualitárias de género e destaquem o papel positivo dos membros da comunidade como modelos contra a discriminação e a exclusão baseadas no género, bem como a otimização da saúde mental e do bem-estar das adolescentes e jovens. São necessárias melhorias estruturais e políticas para aumentar a oportunidade de promover o bem-estar mental das adolescentes e jovens mães em Moçambique.
Diante dos desafios e necessidados encontradas, foi concebido o programa Akuthandizana, que significa, apoio mútuo. A segunda fase do projecto INSPIRE, consite no estudo piloto de implementação do programa de intervenção em saúde mental perinatal para adolescentes(x).